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'Brasil precisa descer do salto' e deixar passado para trás, diz biógrafo de Pelé

O jornalista escocês Andrew Downie, que teve a oportunidade de testemunhar a alegria do Brasil na conquista da Copa do Mundo de 2002, fez uma análise contundente sobre a situação atual do futebol brasileiro.

Em uma entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, Downie, que morou entre Rio de Janeiro e São Paulo e foi correspondente de importantes veículos internacionais como The New York Times e The Guardian, expressou sua preocupação com a forma como o Brasil se vê no cenário do futebol mundial.

Durante sua estadia no Brasil, Downie estreitou laços com o futebol nacional, o que o levou a escrever biografias de grandes ícones, como Sócrates, em "Doutor Sócrates", e Pelé, em "Epic".

Ele ressalta que, embora o Brasil tenha uma rica história no futebol, é hora de parar de se gabar das cinco estrelas que adornam a camisa da seleção. "O brasileiro precisa aprender que não é mais referência.

É preciso parar de se gabar de ser pentacampeão, porque isso não importa para a Noruega, o Japão, a Argentina ou para quem quer que esteja jogando contra o Brasil. Eles não têm mais medo do Brasil", afirmou Downie.

O jornalista destacou que, apesar de o Brasil ter sido um gigante no passado, a realidade atual é diferente. "O que importa no próximo jogo é o jogador e o esquema tático.

Ter ganhado cinco títulos é um fato histórico, mas realmente não é relevante hoje", completou.

Ele lembrou de um episódio envolvendo Neymar, que, ao converter um pênalti na partida que resultou na eliminação do Brasil contra a Noruega, teria gritado: "Respeita o Brasil! ".

Para Downie, essa atitude reflete uma mentalidade que precisa ser revista. Para reverter a maré de fracassos, o biógrafo de Pelé acredita que o Brasil deve deixar o passado de lado.

Ele argumenta que, se antes o país contava com alguns dos melhores jogadores do mundo, essa vantagem já não existe mais. "Pelé sempre falava: 'A gente tem uma técnica melhor do que qualquer outro time'. E era verdade.

Ninguém tinha o toque de bola ou o drible do Brasil. Mas isso não é mais suficiente", disse. Downie também comparou o nível atual dos jogadores brasileiros com o de outras seleções.

, e Olise, da França, que comanda o meio-campo de forma mais eficaz do que Casemiro ou Paquetá.

Além disso, mencionou Harry Kane, da Inglaterra, que é um goleador mais eficiente do que qualquer atacante brasileiro, e destacou os goleiros Martínez, da Argentina, e Courtois, da Bélgica, que estão no mesmo nível de Alisson e Ederson.

"O nível de jogador é muito mais nivelado hoje. Não tem escola brasileira, escola uruguaia, como tinha há 40 anos, que faça diferença", acrescentou Downie.

Ele enfatizou que o estilo de jogo brasileiro, que sempre foi marcado pela improvisação e pelas habilidades individuais, não garante mais vitórias nas competições internacionais.

Na visão do jornalista, a questão não é se os jogadores escolhidos por Carlo Ancelotti para a seleção ainda possuem habilidade, mas sim a necessidade de alinhar essas qualidades a uma estratégia tática.

"Essa criatividade não é valorizada como antes, porque o mais importante para um técnico como Guardiola, Mourinho ou Ancelotti é saber jogar em um sistema.

A tática é mais importante do que o poder do drible", afirmou, contrastando com um tempo em que o Brasil sempre sabia que poderia vencer com um pouco de criatividade e improviso.

Além disso, Downie apontou que a instabilidade institucional do futebol brasileiro também afeta a seleção.

Desde o fim da era de Ricardo Teixeira, que presidiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por 23 anos, a entidade teve 11 dirigentes, o que resulta em uma média de um novo comandante a cada 14 meses.

"O Brasil tem que descer do salto alto e entender que o futebol mudou. Você tem que ter organização, um sistema, uma maneira de criar jogadores, uma estabilidade institucional.

A França, a Espanha e a Inglaterra têm isso, e o Brasil não", disse Downie, criticando a falta de organização da CBF. Ele reiterou que isso não significa que os jogadores brasileiros não tenham talento.

Pelo contrário, eles possuem habilidades excepcionais, como demonstram os altos valores de transferência que alcançam nos clubes europeus.

No entanto, Downie fez uma distinção importante: "Uma coisa é ter talento, e outra é mostrar esse talento, mostrar que o técnico pode confiar em você e estar pronto para cada jogo".

A distância do Brasil e a vida na Europa são fatores que, segundo Downie, prejudicam a formação de uma unidade entre os jogadores brasileiros.

Embora haja intercâmbio entre atletas europeus, como jogadores ingleses atuando na França, os brasileiros estão espalhados por ligas diferentes e raramente compartilham o dia a dia em seus clubes.

"Até os anos 1970, quase ninguém tinha ido para a Europa. Tinha um ou dois jogadores. Didi foi para o Real Madrid, Vavá também, mas eram poucos", recordou.

Enquanto isso, a Argentina, que se destacou ao vencer a Inglaterra e se preparar para enfrentar a Espanha na final, possui um sistema de formação de jogadores que é muito mais estruturado do que o do Brasil.

Downie destacou que a seleção argentina tem estabilidade e continuidade, com um técnico que está no cargo há oito anos e um presidente da federação que permanece há ainda mais tempo.

"Nesse período, quantos técnicos a seleção brasileira teve? Vários. Então, o Brasil não tem estabilidade, continuidade, um plano, metas nem organização.

Não é como no passado, quando dava para resolver tudo com um drible", concluiu.

A análise de Downie traz à tona questões cruciais sobre a atual situação do futebol brasileiro, que precisa urgentemente de uma reavaliação de suas práticas e estruturas para voltar a ser uma referência no cenário mundial.

O jornalista escocês, com sua experiência e conhecimento, oferece um olhar crítico e necessário sobre o que precisa ser feito para que o Brasil retome seu lugar de destaque no futebol internacional.

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